Bolsista: Herói ou vilão no processo de aprendizado?

Tenho certeza que entre os temas que já abordei nesta coluna, este será o mais polêmico. O bolsista, figura já consolidada dentro das escolas de dança de salão, sempre carrega uma discussão ao seu redor. Os comentários giram em torno da atuação do mesmo; da análise de sua participação nas aulas e seu impacto no processo de ensino-aprendizagem da dança a dois; da precoce e despreparada profissionalização de alguns; assim como da entrada no ramo dos ”Personal Dancers” por parte de outros. Independente do motivo existe assunto para falarmos da figura do bolsista, indiscutivelmente.

Inicialmente, percebe-se que a necessidade de termos bolsistas nas aulas de dança de salão, surge da falta de paridade entre o número de homens e mulheres nas mesmas. Historicamente mais incentivadas e socialmente permitidas à prática da dança, as mulheres acabam sendo a maioria do público freqüentador das aulas de dança a dois. Com isso, algumas academias lançam mão da estratégia de distribuírem bolsas de estudo para pessoas interessadas em trocar sua disponibilidade de tempo pela frequência nas aulas, solucionando assim o problema das turmas com grande disparidade entre cavalheiros e damas. Ideia muito boa e que com certeza colabora para o desenvolvimento mais eficaz da aula.

Pensando no cenário acima nenhum problema, certo? Infelizmente não, certas repercussões da figura do bolsista na aula devem ser levadas em consideração. Destaco algumas que, em minha percepção, são facilmente detectáveis e é importante serem analisadas.

Com base no perfil priorizado nas seleções, os bolsistas são, em geral, jovens com aptidão motora para a prática da dança de salão que evoluem mais rapidamente por conta do grande número de aulas que fazem. Frequentemente, eles atuam como auxiliares nas aulas para que os professores possam lidar mais facilmente com alunos que apresentam maior dificuldade de aprendizado. Desta forma, aquele que inicialmente era integrado ao processo de ensino-aprendizagem da dança para compor os pares da turma, esta atuando como um assistente, ou mesmo um professor, mas muito costumeiramente, sem nenhuma preparação para isso.

Tal atitude interfere diretamente no processo do professor com a turma. Comumente podemos observar várias aulas individuais, paralelas as dos grupos, ministradas por bolsistas despreparados para tal função. Isso não seria a função de um assistente ou monitor? Não será por conta disso que, rapidamente, algumas dessas pessoas que ganharam uma bolsa para aprender a dançar, acreditam que podem sair das academias que as acolheram e, por conta própria, quase sempre cedo demais, iniciar suas carreiras como professores de dança em academias menos criteriosas com seus quadros docentes, ou mesmo dar aulas particulares nas casas das pessoas?

A grande incidência de situações como as que relatei é a responsável direta pelo inchaço do mercado com relação a quantidade de indivíduos ministrando aulas de dança de salão sem a preparação necessária. Este fato é muito criticado por donos de escolas e professores já renomados no mercado, mas muitos deles têm grande parcela de responsabilidade nesta situação, pois não souberam gerir o processo do bolsista em sua atuação.

Outro tópico que gostaria de trazer para a discussão, seria pensarmos até que ponto a presença de uma pessoa na aula, mais habilidosa que a maior parte dos integrantes da turma, por conta de um maior treinamento, mascara o resultado do aprendizado do grupo e, a rebote disso, até que ponto essa mesma pessoa que estará num baile, com a obrigação de chamar os frequentadores do mesmo para dançar, também interfere na dinâmica habitual do ato de dançar socialmente que as pessoas buscam.

O que se enxerga rotineiramente nas academias de dança, que não conseguem controlar as situações que coloquei anteriormente, são pessoas querendo somente fazer aulas com bolsistas, por conta da falsa facilidade que os mesmos trazem no processo de aprendizagem, fazendo com que os outros pares da turma, alunos matriculados normalmente, sejam preteridos na formação das duplas na aula. Tal atitude se repete nos bailes, resultando em situações constrangedoras de falta de cortesia quando alguém vai chamar o outro para dançar, pois esse desejava uma dança com um bolsista, lamentável.

No desenvolvimento desse quadro, aparece o que atualmente é chamado de “Personal Dancer”, que normalmente é ou foi um bolsista de alguma escola. Esse assunto tem análise rica e extensa, tendo até literatura específica, um livro chamado “Empreendendo em Qualidade de Vida: O Profissional Personal Dance”, da Editora Pandion. Em minha opinião, esta figura influencia a estrutura de ensino da dança de salão e, dada a importância do assunto, prefiro abordá-lo sozinho em outro artigo, aprofundando mais a questão.

Para finalizar, gostaria de deixar claro que não sou contra a inserção de bolsistas nos ambientes das aulas de dança de salão, fui um durante muito tempo. Quero inclusive salientar que a participação do mesmo pode ser maravilhosa e muito benéfica para o ensino do dançar a dois. Porém, se mal administrada e não controlada corretamente, pode gerar situações opostas ao que pregamos como ideal de caminho de ensino da dança em pares: a conquista de uma autonomia dançante, num processo prazeroso de descoberta da maravilha que é dançarmos uma boa música, enlaçado a outro alguém.

Cristovão Christianis: Dançarino, coreógrafo e professor de dança de salão, coordena o curso de capacitação para professores de dança de salão, certificado pela Faculdade da Serra Gaúcha (FSG/RS) e pela Faculdade SPEI, de Curitiba.

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2 Comments

Edmilson Galdino

Boa tarde..
Me chamo Edmilson Galdino,fui aluno na Saltare por 1 ano ….
E sempre achei fundamental a participação de bolsistas no aprendizado dos alunos…
Hoje sou bolsista na Saltare… E o que me fez participar desse processo foi ,que sempre que fui aluno os o bolsistas foram uma fonte de inspiração pra que eu evoluir cada vez mais para que um dia chega-se ao mesmo nível de dança deles.
Então na minha opinião bolsistas além de ajudar no desenvolvimento dos alunos, também serve como fonte de inspiração.
E hoje sou muito feliz por fazer parte dessa maravilhosa equipe de bolsistas.

Reply

    Saltare Danças

    É isso ai Ed… Equipe forte e agora com novos integrantes. Show de bola…

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